Macros e Nutrição

Como Calcular os Teus Macros: O Guia Completo para Atletas em Portugal

Aprende a calcular proteínas, hidratos de carbono e gorduras com base no teu peso, objetivo e nível de treino. Guia prático com fórmulas, exemplos com comida portuguesa e erros a evitar.

15 de abril de 2026·10 min read·Equipa Editorial Ovio
Conteúdo verificado pela Equipa Editorial Ovio com base em evidência científica (PubMed, DGS, EFSA)

Resumo rápido: Para calcular os teus macros, precisas de três valores: o teu gasto calórico diário (TDEE), o teu objetivo (ganhar massa, perder gordura ou manter), e o teu peso em kg. A proteína define-se primeiro (1.6 a 2.2g por kg), a gordura fica nos 25% das calorias, e os hidratos de carbono preenchem o restante.

A maioria das pessoas que tenta contar macros desiste ao fim de duas semanas. Não porque seja difícil, mas porque ninguém explicou bem o processo desde o início. Este guia vai mudar isso.

Vais aprender a calcular os teus macros do zero, com fórmulas reais e exemplos com comida que realmente existe em Portugal.

O que são macros e porque importam

Macronutrientes são os três nutrientes que fornecem energia ao teu corpo: proteína, hidratos de carbono e gordura. Cada um tem uma função diferente e um valor calórico diferente.

Proteína e hidratos fornecem 4 calorias por grama. Gordura fornece 9 calorias por grama.

Quando sabes exactamente quanto estás a comer de cada um, deixas de adivinhar e começas a ter controlo real sobre o teu corpo. Perdes gordura sem perder músculo, ganhas massa sem ganhar gordura desnecessária, e a tua recuperação melhora porque estás a dar ao corpo o que ele precisa, na quantidade certa.

Passo 1: Calcula o teu metabolismo basal (BMR)

O metabolismo basal é o número de calorias que o teu corpo queima apenas para se manter vivo, sem qualquer actividade. É o ponto de partida de tudo.

A fórmula mais precisa para adultos actuais é a de Mifflin-St Jeor (Mifflin et al., 1990), validada em múltiplos estudos e considerada o padrão atual pelas principais organizações de nutrição desportiva:

Para homens: BMR = (10 x peso em kg) + (6.25 x altura em cm) - (5 x idade) + 5

Para mulheres: BMR = (10 x peso em kg) + (6.25 x altura em cm) - (5 x idade) - 161

Exemplo para um homem de 80kg, 178cm e 28 anos: BMR = (10 x 80) + (6.25 x 178) - (5 x 28) + 5 = 800 + 1112.5 - 140 + 5 = 1777 calorias

Passo 2: Aplica o teu factor de actividade (TDEE)

O BMR diz-te quanto gastas em repouso. Para saber o teu gasto total diário (TDEE), multiplica pelo teu nível de actividade (Kerksick et al., 2018):

Nível de actividadeMultiplicadorDescrição
Sedentário1.2Trabalho de escritório, pouco ou nenhum exercício
Levemente activo1.375Exercício 1 a 3 vezes por semana
Moderadamente activo1.55Exercício 3 a 5 vezes por semana
Muito activo1.725Exercício intenso 6 a 7 vezes por semana
Extremamente activo1.9Dois treinos por dia ou trabalho físico pesado

Continuando o exemplo do homem de 80kg que treina 4 vezes por semana: TDEE = 1777 x 1.55 = 2754 calorias por dia

Passo 3: Ajusta as calorias ao teu objectivo

Com o TDEE calculado, ajustas consoante o que queres fazer:

Ganhar massa muscular: TDEE + 10% (superavit moderado) No exemplo: 2754 + 275 = 3029 calorias

Manter o peso: TDEE sem alteração No exemplo: 2754 calorias

Perder gordura: TDEE - 15% (défice moderado que preserva músculo) No exemplo: 2754 - 413 = 2341 calorias

Nota: Défices superiores a 20% são eficazes a curto prazo mas aumentam o risco de perda muscular significativa, queda de performance e fadiga crónica.

Passo 4: Distribui as calorias pelos três macros

Aqui é onde a maioria dos tutoriais peca. A ordem certa é sempre: proteína primeiro, gordura segundo, hidratos por último.

Proteína

A proteína é o macro mais importante para quem treina. Tem dois papéis fundamentais: constrói e repara músculo, e sacia mais do que qualquer outro macro (o que ajuda a comer menos sem passar fome).

Para atletas e praticantes de ginásio, segundo a posição actualizada da International Society of Sports Nutrition (ISSN, 2023):

  • Ganho de massa: 1.6 a 2.2g por kg de peso corporal
  • Manutenção: 1.4 a 1.8g por kg
  • Perda de gordura: 2.0 a 2.7g por kg (mais alta durante o défice para proteger o músculo)

A meta-análise de Morton et al. (2018), que analisou 49 estudos com 1.800 participantes, confirmou que consumos acima de 1.62g/kg não produzem ganhos adicionais de massa muscular em condições normais de treino. Durante fases de défice calórico, porém, valores mais altos ajudam a preservar o músculo existente (Stokes et al., 2018).

Para o nosso homem de 80kg em fase de ganho de massa: Proteína = 80 x 2.0 = 160g por dia = 640 calorias

Gordura

A gordura regula as hormonas, suporta a saúde articular e facilita a absorção de vitaminas A, D, E e K. Demasiado pouca gordura na dieta afecta negativamente os níveis de testosterona e o bem-estar geral.

O valor recomendado para atletas é 25% das calorias totais (Thomas et al., 2016).

Para o nosso exemplo em ganho de massa (3029 calorias): Gordura = 3029 x 0.25 = 757 calorias / 9 = 84g por dia

Hidratos de carbono

Os hidratos são o que sobra depois de calcular proteína e gordura. São o combustível principal para treinos de alta intensidade.

Calorias restantes = 3029 - 640 (proteína) - 757 (gordura) = 1632 calorias Hidratos = 1632 / 4 = 408g por dia

Resultado final para o exemplo

MacroGramasCalorias
Proteína160g640 kcal
Hidratos408g1632 kcal
Gordura84g757 kcal
Total652g3029 kcal

Calcula os teus macros agora

Usa a calculadora abaixo para obteres os teus valores exactos com base nos teus dados reais:

Calculadora de Macros

Calcula os teus macros aqui

Como atingir os teus macros com comida portuguesa

A teoria é simples. A parte difícil é perceber como é que os teus macros encaixam em refeições reais, com comida que encontras no supermercado português.

Fontes de proteína:

Peito de frango grelhado tem 31g de proteína por 100g. Para um homem de 80kg com 160g de proteína diária, 250g de frango no almoço e 200g no jantar já dão 140g. O restante sai dos ovos ao pequeno-almoço e do iogurte grego a meio da tarde.

Bacalhau cozido tem 29g por 100g e é barato e versátil. Atum ao natural em lata (sem óleo) tem 26g por 100g e é conveniente para qualquer refeição rápida.

Fontes de hidratos:

Arroz cozido tem 28g de hidratos por 100g (já cozinhado). Batata doce tem 20g por 100g e é uma escolha melhor do que batata comum pela fibra e pelo índice glicémico mais baixo. Aveia crua tem 60g de hidratos por 100g e é ideal ao pequeno-almoço.

Fontes de gordura:

Uma colher de sopa de azeite virgem extra (14g) tem 14g de gordura. Um ovo inteiro tem 5g. Queijo fresco tem 6g por 100g. Com azeite nas refeições e ovos ao pequeno-almoço, atinges facilmente os teus 25% de gordura sem precisar de contar ao pormenor.

Os erros mais comuns ao calcular macros

Calcular o peso em seco vs cozinhado: O arroz cru tem o dobro dos hidratos do arroz cozido porque absorve água. Quando usas uma app de tracking, verifica sempre se o valor é cru ou cozinhado. A maioria das pessoas subestima o arroz por este motivo.

Ignorar óleos e molhos: Uma colher de sopa de azeite tem 120 calorias. Um molho de iogurte para salada pode ter 80. Estas calorias invisíveis são uma das razões mais frequentes para não ver resultados apesar de "seguir o plano".

Mudar os macros toda a semana: Os resultados de ajustes nutricionais demoram três a quatro semanas a aparecer. Mudar os macros ao fim de dez dias porque "não está a funcionar" é uma das formas mais rápidas de não progredir.

Objectivos de calorias demasiado agressivos: Um défice de 30% destrói performance, humor e recuperação. Um superavit de 20% acumula gordura desnecessária. Moderação nos dois sentidos.

Com que frequência deves recalcular os teus macros?

Recalcula a cada quatro a seis semanas, ou quando o teu peso mudar mais de 3 a 4kg. O teu TDEE muda com o peso corporal, e o que funcionava em Janeiro pode ser insuficiente ou excessivo em Março.

Se estás a perder peso mais rápido do que 0.5 a 1% por semana durante uma fase de corte, aumenta ligeiramente as calorias. Se não estás a ganhar nada numa fase de superavit, aumenta 100 a 200 calorias e aguarda mais duas semanas antes de ajustar de novo.

Perguntas frequentes

Os macros são a mesma coisa que calorias? Não exactamente. As calorias são a unidade de energia total. Os macros são a distribuição dessa energia pelos três nutrientes principais. Podes ter 2000 calorias com macros completamente diferentes dependendo de como os distribuis.

Tenho de pesar tudo na balança? Durante as primeiras quatro a seis semanas, sim. Pesar os alimentos é a forma mais rápida de aprenderes as quantidades reais. Depois de algum tempo, consegues estimar com razoável precisão sem balança. Para progressos sérios, a balança voltará a ser útil de vez em quando.

Posso comer fora do plano e ainda progredir? Sim, desde que não seja todos os dias. Uma refeição fora do plano por semana tem impacto mínimo nos resultados. O problema são os fins de semana completamente descontrolados que apagam o défice criado de segunda a sexta.

Preciso de contar macros para sempre? Não. O objectivo do counting é aprenderes as quantidades e desenvolveres intuição. A maioria das pessoas faz isso durante três a seis meses e depois consegue manter os resultados com estimativas informadas.

Fontes científicas

  1. Mifflin MD, St Jeor ST, Hill LA, Scott BJ, Daugherty SA, Koh YO (1990). A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. The American Journal of Clinical Nutrition. Ver estudo

  2. Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, et al. (2018). A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine. Ver estudo

  3. Stokes T, Hector AJ, Morton RW, McGlory C, Phillips SM (2018). Recent Perspectives Regarding the Role of Dietary Protein for the Promotion of Muscle Hypertrophy with Resistance Exercise Training. Nutrients. Ver estudo

  4. Kerksick CM, Wilborn CD, Roberts MD, et al. (2018). ISSN Exercise & Sports Nutrition Review Update: Research & Recommendations. Journal of the International Society of Sports Nutrition. Ver estudo

  5. Thomas DT, Erdman KA, Burke LM (2016). Position of the Academy of Nutrition and Dietetics, Dietitians of Canada, and the American College of Sports Medicine: Nutrition and Athletic Performance. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics. Ver estudo

  6. Jäger R, Kerksick CM, Campbell BI, et al. (2023). International Society of Sports Nutrition Position Stand: Protein and Exercise. Journal of the International Society of Sports Nutrition. Ver estudo

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